A televisão ligada não era o suficiente para prender minha atenção. Ainda continuava pensando na última ligação que havia recebido. Eu nunca mais tinha ouvido falar dela, é certo que nunca brigamos, nem mesmo quando terminamos. Mas nunca mais havíamos nos falado. E de repente, ela volta. E não volta sozinha. Noiva. Quem diria?
Ao chegar à igreja, vi a família toda pela qual um dia fiz parte. Todos enlouquecidos por estarem ali. “É muito novinha”, era o que todos me diziam. Lamentavam por termos nos separado: “nunca mais ela encontrou alguém como você”, dizia uma tia bem velhinha enquanto pegava no meu braço. Na realidade, não estava preocupado, conhecia a noiva bem demais e sabia que nunca erraria tão feio assim. Sabia que tinha um motivo para esse acontecimento.
De repente, a multidão se silenciou e a cerimônia teve seu início. Confesso que me assustei um pouco ao ver o noivo: um tanto mal encarado, dava para ver partes de tatuagens em seus punhos, o resto estava escondido pela manga longa do terno; não parecia ser do tipo trabalhador, para falar a verdade, parecia do tipo que vivia da mesada do pai até agora. Porém, quando ela entrou na igreja e me deixei olhá-lo novamente, entendi o porquê de ser ele no altar (e talvez não eu): era louco por ela. Ah, se era!
Ela, bem, eu sabia que nunca deixaria a desejar. Seus cabelos castanhos emolduravam seu rosto e seus olhos azuis brilhavam enquanto as lágrimas rolavam e paravam perto da boca, que estava armada em um sorriso aberto. Estava radiante, e ninguém conseguia dizer do contrário.
Notei que estava com os pés descalços. Sempre quis se casar com os pés descalços, eu caçoava dela sobre isso quando namorávamos. Era um dos tantos sonhos dela, um que ela agora conseguia realizar. Sinceramente, era meio nostálgico. Estava feliz por ela – Deus sabe como estava -, mas não conseguia não me sentir estranho: às vezes meio nostálgico, às vezes meio perdido.
A cerimônia terminou e nos encaminhamos para a festa. Lotada é uma boa palavra para descrevê-la. O pessoal estava mais solto, contente. Talvez fosse o álcool, ou talvez fosse somente porque finalmente tinham aceitado a situação. Mas também, o que iriam fazer? Ela já estava casada. Bastavam aceitar e ser feliz com ela.
No meio da festa, senti uma mão me puxar. Era ela. Me tirou para dançar sorrindo, e eu sabia que estava feliz por eu estar ali. Os pés dela continuavam descalços, então tirei meus sapatos também. Prometi à ela que também me casaria de pés descalços. Obviamente, não nos casamos, um com o outro. Mas achei que seria legal. Ela sorriu e eu sabia que havia acertado. Não havia mais um véu pendurado em seus cabelos, como antes. Para falar a verdade, notei que quando começou a festa não havia mais nada em seus cabelos. Agora, porém, havia uma flor pendurada atrás de sua orelha. Possivelmente seu novo amor a tivesse colocado ali. Dançamos e fui embora não muito depois.
Os anos se passaram e nunca mais a vi. Mas ouço histórias e comentários pela vizinhança de que anda muito bem. O tempo fez bem para todo mundo, inclusive para mim. Ainda guardo dela boas recordações, afinal foi o primeiro amor que tive, talvez meio imaturo e infantil, mas o primeiro. E, certamente, a nossa ultima imagem juntos é a que guardo com mais carinho: ela com flores na cabeça e os nossos pés descalços.
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