Caro Senhor Inventor da Palavra Desculpa,
Que bela porcaria o senhor fez, hein? Não me recordo direito, mas acredito que já sei de onde surgiu uma idéia tão idiota. Você deveria estar pulando na cama de sua mãe, com um copo de suco de uva – que com certeza mancharia o lençol novo dela – na mão. Ela devia estar te avisando: “querido, largue este copo”, e o que você fez? Fingiu não escutar, estava divertido, por que escutaria? E então, o copo caiu de sua mão. Você virou e disse: “desculpa”. Agora me conte... Adiantou? O lençol dela não manchou? Ou melhor, você pediu desculpas porque estava arrependido? É claro que não, pediu por medo de qualquer espécie de castigo.. Isso não é arrependimento.
O problema é que agora muitos seguem teu mau exemplo. Não, não estão todos pulando por aí com copos de suco nas mãos, estão fazendo pior. Ofendem uns aos outros, machucam, matam, enfim, as notícias só rolam e ficam cada vez piores, e o que eles dizem no final? Desculpa.
“Você me chamou de quê?”
“Desculpa.”
“Você me machucou!”
“Desculpa.”
“Desculpa.”
Enfim, você sabe, os casos são variados. O que me incomoda, não é a palavra e talvez a sua aplicação, mas a falta de sentido que ela tem hoje. Nem todos que pedem desculpas se sentem realmente culpados, na realidade, só fazem isso pra se livrarem da culpa e não sofrerem nenhum tipo de punição por ela.
Por isso te peço através desta carta, que crie uma outra invenção. Esqueça essa! As coisas já estão bem horríveis comigo. Não preciso de mais mentira, de mais falsidade, de mais lágrimas.. Já tem tanta sujeira por aqui, tanta coisa ruim. Quem sabe o senhor não poderia inventar um detector de mentira? Que fosse implantado em todos quando nascessem e os forçasse a não mentir, se não todos veriam e assim passariam vergonha. Talvez assim as pessoas não o fizessem. O que acha? Aguardo a tua resposta ansiosamente.
Atenciosamente,
O Mundo.


