Encontrei com ela uma vez. A princípio parecia um borrão negro, assutou-me. Mas ao aproximar-se foi tomando forma. O “borrão” que no começo assutava-me, agora conseguia me encantar. Era linda! Não entendo como as pessoas sempre tiveram dela uma visão oposta. Não trocamos uma palavra sequer, não me convidou para nenhum passeio sem volta, como sempre imaginei que convidaria. Apesar de falta de comunicação, consegui ver em seus olhos uma cor de saudade, nostálgica. E, de repente, já via toda a minha vida passar por meus olhos. Era como se tivesse mergulhado na cor de sua íris, e neste oceano acastanhado encontrasse todos os capítulos de minha história: o primeiro dente-de-leite que caiu, as pedaladas de bicicleta independentes de rodinhas auxiliares, os tombos que se sucederam, as séries iniciais que cursei na escola, as derrotas sofridas, as vitórias conquistadas.. tudo. E o que aconteceu depois, eu já havia imaginado: me convidou para aquele passeio sem volta. Prometeu-me em troca, me deixar viver em um lugar maravilhoso, onde as maldades humanas que via ao meu redor lá não existiam, onde os pássaros vivam livres e o sol reinava juntamente com a brisa leve da primavera. O convite era tentador, tanto quanto era para mim inaceitável. A Morte era simpática, e quase me persuadiu com o seu encanto, mas não era a tranqüilidade que me oferecera que queria ter naquele momento. Era, por incrível que pareça, os altos e baixos da vida o que eu mais almejava. Pois só neles é que aprenderia a verdadeira forma de aproveitar essa tranqüilidade. A Morte é algo fácil, transparente, já a vida essa sim é a verdadeira dificuldade. Estar vivo é uma grande conquista, a maior de todas elas. Sinta-se um vencedor!
post-scriptum: Ao contrário do que dou a entender, nunca "quase-morri", tive a idéia deste texto após ver um documentário do Discovery Channel. Ah, outra coisa, gamei na cara de contente do menino do primeiro lugar, escolhi esta fotografia só por causa dele, nem iria colocar nada.


